| Mostra Competitiva Internacional - Apresentação |
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Não foi fácil chegar até aqui: depois de termos dado cabo de mais de dois mil filmes inscritos – "dois mil e cem", lembra o nosso diretor – e de só conseguirmos fechar a grade de programação depois de exaustivas reuniões, nós, da comissão de seleção da competitiva internacional do 13º Festival Internacional de Curtas BH, esbarramos num obstáculo aparentemente muito mais fácil de transpor, a elaboração de um texto de apresentação da mostra. Acontece que não é fácil encontrar uma síntese depois de tantas imagens (e de algumas escolhas), depois de tanta argumentação (e de alguma negociação), ainda mais considerando que a comissão é formada por seis indivíduos de gosto e temperamento bem diferentes, como é de se supor. A solução mais fácil seria redigir um texto burocrático, protocolar, como é de praxe. Solução que não nos pareceu satisfatória. Decidimos então que cada um tinha o direito de expor minimamente o que tinha visto e experimentado, depois de tanto trabalho e de tantos mundos visitados. O resultado, a seguir, é uma espécie de diálogo, ou o início dele, fruto de uma troca de e-mails entre os integrantes da comissão.
Queria falar sobre o cinema e a juventude, já que este ano temos a estreia, no festival, da Mostra Juventude e também excelentes filmes de juventude, como de hábito, na competitiva. Bons filmes de jovens, feitos por jovens. Nunca deixei de encontrar um punhado deles nesses anos em que tenho feito a seleção dos curtas do festival. Eu diria hoje que essa é mesmo a essência do curta-metragismo. O cinema é uma arte intrinsecamente ligada à juventude: eu me lembro de Godard (o bebê) e Fritz Lang (o dinossauro) concordando sobre essa premissa em uma conversa para a série Cinéma de Notre Temps, "O Dinossauro e o Bebê". Estamos nos anos de 1960, auge da Nouvelle Vague e do cinema de juventude. Uma geração que crescera se espelhando mais na juventude ("transviada") do cinema norte--americano dos anos 50 do que nos próprios pais reivindicara o direito de se ver diretamente representada nas telas – por isso, além dos jovens diretores, a Nouvelle Vague trouxe também toda uma nova safra de atores, jovens que encarnavam os hábitos, os vícios e os maneirismos (o jeito de ser) da nova geração. Jovens que, em suas perambulações, traçavam toda uma nova topologia urbana, descortinando uma Paris que o próprio cinema francês desconhecia. Lembro aqui a Nouvelle Vague porque ela começou pelo curta-metragismo, com filmes de jovens sobre jovens (filmes sobre a mutação, portanto), e porque ela representou esse duplo reconhecimento de uma geração que viveu e se viu viver nas telas, uma adequação efêmera entre uma nova ideia de cinema e uma nova ideia do homem que, por um instante, pôde transformar um momento particular da história do cinema em uma mitologia dos tempos modernos. Desde então, o curta-metragismo nunca perdeu essa potência. Por mais que a produção se perca em um emaranhado de fórmulas e clichês de aprendizes de feiticeiro, sempre podemos encontrar, em meio a toda poluição visual, os sintomas reais de uma nova juventude em mutação, novas percepções de mundo, todo um mundo novo que se anuncia em dois ou três filmes. Os filmes de juventude da safra deste ano me chamam muito a atenção por seu caráter topológico (filmes como Pude ver um Puma, Parmi Nous e Cálida tarde de Verano). Mas há aí uma mutação importante, algo como um sintoma: nesses novos espaços indeterminados, os corpos errantes são coletivos, é toda uma juventude que surge autoexilada. Nos anos 60/70 eram indivíduos que se afastavam (heroicamente até) da sociedade em direção à margem (uma margem idealizada). Hoje são grupos inteiros de jovens perambulando pelas ruínas dessa sociedade, como se esse procedimento caro ao cinema moderno, a deambulação, fosse retomado como sintoma do esfacelamento dos projetos coletivos atuais. Tiago Mata Machado*
Uma coisa que notei como determinante na minha relação com os curtas nesses meses de curadoria foi a rapidez com que tudo acontece. Os filmes são rápidos, as avaliações são rápidas, as anotações são rápidas, as discussões são rápidas. Essa observação me leva a duas perguntas: como conseguimos parar e olhar para os filmes com o cuidado que eles merecem? Existe espaço para sutilezas no curta-metragem? Eu digo que sim. O que me leva aos filmes: a força dos curtas selecionados reside na sua vontade de cinema e na sua capacidade de transformar impulsos criativos em construção cinematográfica. Estes jovens querem sair de casa e se jogar no mundo (Na escola, Les navets blancs empêchent, Nena). Para isso cada um deve aprender a se expressar (Aground, Wachstum). Para isso é necessário explorar a fundo o terreno onde está (Everybody's nuts, Parmi nous, Los caminos que esperan). Para isso é necessário se posicionar perante o mundo (Incêndio, A walk with Nigel, Ya zabudu etot den). Podemos dizer que, independentemente do estilo, esses curtas buscam se inserir no cinema, e mesmo que os seus gestos criativos ainda tenham muito de inconsciente, podemos ver claramente uma paixão pela arte cinematográfica. E isso é o que sempre esperamos dos filmes. Uma observação: a juventude como vontade de descoberta e risco é sempre fascinante. O gosto pelo desafio, a raiva contra a ordem estabelecida tornam, sem dúvida, essa época da vida um momento de renovação e até inovação. Ser jovem é estar sempre inquieto e ávido por enfrentamentos, por revoluções. O curta-metragem é um ótimo meio para esse tipo de inquietação que com a velhice vai se apaziguando e morrendo. Para terminar, uma citação do cineasta (que ainda faz curtas!) mais velho de idade e mais jovem de alma no cinema atual, Manoel de Oliveira: "O que eu reprovo na gente nova é quando ouço dizer que a Cinemateca se oferece para lhes mostrar filmes antigos e eles dizem que não querem. Isso reprovo, porque o cinema não nasceu com eles, já cá estava, e cada um dos realizadores foi mais uma folha na frondosa copa da árvore do cinema. Mas o que sustenta a árvore não são os ramos, são as raízes. E se tirarem as raízes, caem as folhas." Luiz Pretti*
Lembro-me de um filme: em Baionetas Caladas, Samuel Fuller constrói a seguinte cena: um dos soldados precisa cruzar, durante uma noite lúgubre, um campo minado. Os colegas observam sua ação e o espectador é diretamente projetado na situação-limite desse instante observado. Fuller, a despeito de qualquer verossimilhança, faz com que o soldado caminhe bem mais do que o necessário, porque a cena pede uma duração maior, para que a ação do soldado não seja mais importante do que o próprio olhar dos colegas que acompanham a sua caminhada. Em Parmi nous, um dos curtas selecionados para a competitiva, há uma cena que, de alguma maneira, lembra um pouco a de Fuller: um dos refugiados precisa cruzar de volta uma fronteira, e quando está próximo de um arbusto onde estão seus companheiros, é pego por alguns dos vigilantes. Claramente, ele é propositalmente mais lento que os perseguidores, mas é preciso que seja, pois a continuação da mise-en-scène pede que os outros não sejam também capturados, para que o filme tenha, a partir daí, seu leitmotiv. O grupo de refugiados é impulsionado por esse estado permanente de vigilância. Mas nem sempre existe essa "necessidade": em outros filmes, como Cálida tarde de verano, Les navets blancs empêchent de dormir, Pude ver un puma, o movimento não vem de uma motivação a priori. Ao contrário, os personagens seguem, exploram o espaço à medida que o descobrem. Reconhecidos por alguns autores contemporâneos como um cinema de fluxo, esses filmes encontram diálogo forte em cinemas como os de Claire Denis, Gus Van Sant, Hou Hsiao Hsien. Mas, para além de uma simples referência, trazem o frescor da tentativa de reconfiguração do olhar para um lugar em transformação. Percebo, por exemplo, nas ruínas de Pude ver un puma a ressonância de um mesmo cinema que reflete seu espaço como o de Everybody's nuts. Sim, um cinema jovem muitas vezes feito por jovens. Mas os personagens crianças de um Nena ou Los caminos esperan trazem consigo, a meu ver, um certo desafio de tentar compreender as formas de lidar com o mundo dessa juventude. E aí me recordo de uma cena de um dos curtas-metragens que mais me chama a atenção: no tailandês Aground, crianças se agrupam e brincam na sala de casa com um robozinho de brinquedo e um game boy. Os sons dos jogos se misturam ao dos personagens e a garotinha dirige seu olhar diretamente para a câmera, como se quisesse inserir a nós, espectadores, naquele seu universo. Acho que esse cinema jovem tem especialmente essa vontade de nos convidar sempre para cada uma de suas explorações territoriais, sentimentais ou políticas. Vejo nesse direcionamento de olhar a possibilidade que esse cinema encontra de espelhamento. Leonardo Amaral*
Passa pela minha cabeça agora perguntar, a partir desta primeira troca de ideias: o que é o cinema jovem? Para mim, parece que tem sido a questão de fundo ao longo dos encontros e discussões da comissão de seleção, ainda que não tenha surgido de forma programática ou sido explicitamente explorada. Talvez não tenha aparecido dessa forma por carregar em sua essência a impossibilidade prática de delimitar esse terreno movediço. Ainda assim, a seleção reflete uma espécie de sintonia invisível diante dessa questão. O Luiz chamou a atenção para algo central: a velocidade – e isso se imprime em grande escala no ritmo dos filmes vistos. No entanto, me parece que o trabalho da seleção reside justamente em não se deixar dominar pelas características hegemônicas, predominantes, dessas milhares de obras que chegam a nós. Até porque a juventude, me parece, carrega consigo ao mesmo tempo o fluxo alucinado de ideias (velocidade) e também a resistência às imposições do mundo; o espaço para o silêncio, a disfunção, a deambulação sem rumo visível. A coisa pulsa intensamente, mas nem sempre isso se traduz em imposições velozes sobre o olhar do espectador. No recorte feito, muitas vezes o filme se dita pelo ritmo do caminhar, no ritmo do corpo que se descobre, que se investiga. Esse ritmo respira, entre um passo e outro. Nem sempre se afoba. Outra questão que esses filmes evocam em mim é a inconsequência. Nessa constante errância dos personagens, nesse destino vago (ou mesmo no não-destino), a incerteza surge como impulso; eles se lançam, lancinantes, ao desconhecido. E esse impulso, em todo o seu descontrole e desarranjo, nos traz a beleza e a força incontornável da juventude. Se os filmes esbarram em erros ou excessos, é porque se arriscam mais, se amparam, em grande parte, no que seus personagens e formas têm de insondável. A nós é dada a oportunidade de acompanhar a busca – os filmes são movidos antes por uma pulsão passional que por um exercício metódico e calculado de controle. As referências não são apenas dispersas, mas caóticas. A beleza dos diálogos que travam com as tradições do cinema clássico ou com as vanguardas cria harmonias impossíveis, fazendo coabitar irmãos Dardenne e Tarkovski, Cassavetes e Straub, cinema de gênero e filme ensaístico. A inconsequência dos cineastas se explicita nos riscos, e entre incríveis e potentes acertos, e belíssimos erros, temos esse trôpego caminhar. Acompanhemos, pois, os passos desses jovens personagens, desse jovem cinema. João Toledo*
Embora não se encaixem em nenhum movimento particular, alguns filmes da competitiva internacional me instigaram por tentar mergulhar fundo na busca por uma linguagem própria, por meio de claras (e diria também de certa forma amadurecidas) escolhas estéticas dentro de narrativas pouco comuns. O primeiro filme que vem à mente seria o surpreendente trabalho de animação experimental MRDCHAIN. Com sua representação surrealista, o filme nos transporta para um estranho universo brutal e expressionista. Na verdade, a sensação que tive é que somos conduzidos por um mundo ao qual não pertencemos. Um mundo de fisicalidades anormais, que simboliza o medo da decadência física e nos apresenta uma visão particularmente crítica sobre o anonimato, a urbanização e a violência. Fiquei com a impressão de ver um filme onde existe a reminiscência de um sonho animado a partir de um filme de David Lynch. Seria este um corpo dentro de um corpo? Ou então um sonho dentro de um sonho? Outro filme que me impressionou foi o israelense Audition. Com uma proposta muito simples (o curta todo se passa em um sofá durante um teste de elenco), o filme consegue expor todas as esferas de um conflito religioso que já perdura há séculos, isso tudo sem mostrar um muro, uma igreja/sinagoga ou um tanque de guerra. Só que dentro dessa aparente simplicidade, somos expostos a sentimentos tão fortes e reais que a crescente tensão (cultural e sobretudo sexual) no decorrer do filme fica quase insuportável. Para mim, o mais intenso e belo exemplo de uma tendência do cinema contemporâneo. As reflexões de um artista (neste caso um fotógrafo) e sua musa (neste caso, sua mulher): complexo e cheio de camadas, A mulher do fotógrafo gira em torno do tempo e a mortalidade. Com uma dedicação absurda a seu arquivo particular, fica claro que o fotógrafo (amador) está tentando agarrar-se ao tempo. Sua esposa, literalmente, encarna a beleza do tempo que vai passando. O filme essencialmente explora a questão do que resta da vida e de como o amor e a arte se encaixam no final dela. Ricardo Mehedff*
Mais que um cinema jovem, ou que um cinema de ou para jovens, percebo na nossa seleção filmes de um olhar ao mesmo tempo generoso e rigoroso com o mundo – o mundo ao redor (físico), mas também o mundo do cinema (audiovisual). Mais que um tema que perpassa esses filmes, há imponderavelmente uma visão política sobre espaços, pessoas e maneiras de olhar. Sejam jovens, adultos, crianças, figuras animadas, o que parece explodir na tela é uma forte inquietação com a ambiência, os rumos sociais e políticos, a inadequação a qualquer tipo de amarra ou exigência mercadológica. Os realizadores dos filmes que aqui escolhemos se deixam mostrar por suas escolhas estéticas e plurais, da maneira técnica de filmar à posição da câmera. Como disse o Tiago Mata Machado, é possível relacionar o momento com a Nouvelle Vague. Complementando, eu diria ser possível também relacionarmos esses trabalhos a qualquer momento histórico no qual a arte não se satisfez em ser apenas arte per se, mas também um elemento deflagrador de sentimentos e reflexões sem, por isso, se vender como panfleto. Alguns filmes aqui falam de uma coisa no tema, mas deixam claro o quanto lhes interessa transmitir significados na elaboração de sua forma: o equilíbrio de um e outro dará sua excelência. É bastante curioso tecer esses pensamentos depois de um exaustivo processo de seleção. Centenas e centenas de curtas se acumularam, numa velocidade insana, como bem apontou Luiz Pretti. A princípio, eu tive a impressão de tomar contato com um excesso de "narrações": muitos filmes se dispunham a contar histórias e deixar às claras valores e crenças morais, fazendo da encenação um veículo para se chegar a uma "mensagem". Por um tempo, temi que nos restasse apenas uma seleção de "filmes morais". Eis que, na peneira dos filmes e na discussão com o grupo, o elemento "cinema" piscou forte, e nos deparamos com possibilidades potentes, filmes imponentes que pareciam atropelar nossas sensibilidades e quase nos obrigar a compartilhá-los. Esse efeito variou entre os integrantes da comissão, alguns preferindo determinados filmes a outros (elemento natural e essencial de uma boa comissão). A relação de produções que aqui apresentamos congrega muito desse nosso sentimento. A inquietação que se verá na tela do festival reflete muito da inquietação que nos mobilizou na difícil tarefa de definir os filmes a serem aqui exibidos. Marcelo Miranda*
* Comissão de Seleção – Curtas Internacionais |