menu_contato
  • English (United Kingdom)
Mostra Competitiva Brasil - Apresentação

Uma mostra competitiva não deve ser encarada como disputa olímpica entre os filmes exibidos. Deve ser a oportunidade de se apresentar um olhar sobre a produção atual de cinema e, ao mesmo tempo, colocá-la em debate. Sua relevância será maior à medida que o olhar que guia a sua composição se distanciar do ideal abstrato de escolher os melhores filmes e assumir o desafio de apresentar aos espectadores uma amostra significativa do cinema presente. O papel da comissão é conjugar o geral (o estado atual do cinema) com o particular, os filmes em si. É estabelecer reflexão crítica sobre o presente da arte cinematográfica a partir dos filmes apresentados para a seleção. E fazer partir dos filmes as questões: que eles mais se imponham à seleção do que se sujeitem a ela; porém, com problematizações e questionamentos atuais do cinema como pano de fundo. É preciso perceber quais obras dizem mais do estado atual do cinema e do mundo. E fazê-las chegar aos olhos do espectador, sujeito e agente do presente.
Essa é a maior marca (e a maior dificuldade) da composição de uma mostra competitiva: transitar entre presente e futuro. Escolher entre o cinema de agora (com os critérios do presente) filmes que demonstram força para resistir ao tempo e alcançar o futuro como marcas indeléveis do cinema em curta-metragem de 2011.  A força que faz essas obras resistirem ao passar do tempo é a capacidade que eles têm de nos dizer do agora, do agora do cinema e do mundo. Os curtas são como as palavras de uma pequena carta que nós, do presente, enviamos ao futuro, contendo nosso modo de ver e fazer cinema.
O cinema brasileiro, por conta da difusão das tecnologias digitais, passou a produzir quantidade exponencialmente maior de longas-metragens na última década. Contudo, o curta-metragem continua a ser território privilegiado para detectar desejos e pesquisas dos realizadores brasileiros. Nessa mostra competitiva do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte podemos ter amostra significativa do cinema nacional e da realidade brasileira atual.
Nesse contexto, a diversidade se impõe. Diversidade de estratégias cinematográficas, com filmes expressamente narrativos, assim como experimentais, calcados na expressão plástica da imagem. Assim como documentários, e mesmo falsos documentários. Para se ter ideia da gama de possibilidades do cinema brasileiro em 2011, temos na mostra competitiva um filme realizado com imagens de videogame e outro composto de montagens de fitas VHS de momentos caseiros anônimos.
Poderíamos destacar, de maneira breve, três aspectos dessa produção recente que estarão presentes nessa seleção para a mostra competitiva: o trabalho com figuras e convenções de gêneros cinematográficos, como o terror, o fantástico e o suspense (presente em filmes como Para eu dormir tranquilo, Náufragos e O hóspede, por exemplo); a realização a partir do recolhimento de imagens pré-existentes no mundo (Roberto cabeção e Film Pornografizme); e, por fim, o questionamento das formas do documentário e da presença do real e do espontâneo, com ficções marcadas pelo improviso (O último dia) e documentários marcados pela encenação (Ovos de dinossauro na sala de estar e Canoa quebrada). É muito significativo que o filme mais afeito à forma tradicional do documentário seja realizado com imagens do jogo virtual Second Life (As aventuras de Paulo Bruscky).
E há, sobretudo, o brilho próprio das obras. Aquele mundo particular que cada uma instaura. Cada filme é um país próprio e nossa imersão nele só cresce quanto mais ele nos acolhe e retira do nosso próprio mundo. Sem dúvida temos nessa seleção filmes que apresentam aspectos da realidade e do cinema brasileiros atuais. Mas, sobretudo, temos nessa seleção filmes que apresentam uma realidade e um cinema absolutamente particulares e únicos.

O destino de tudo é o espectador. Entre o passado da seleção e o futuro das interpretações, o único momento que importa é o presente da projeção, instante no qual questões e imagens se efetuam e que permanece, como sonho eterno, dentro de cada um. Essa é a máxima potência do cinema. E nada mais se pode esperar ao exibir e realizar os filmes.
 

Affonso Uchoa, Bruno Vasconcelos, Gracie Santos e Ricardo Alves Jr.

Comissão de Seleção – Curtas Brasileiros