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Sessão das Onze - Maldita - Apresentação

Uma mulher atormentada por uma relação fora do casamento se deixa levar pela sedução de Deus e do diabo, até derramar sangue para se livrar de seus conflitos. A trama de Lavagem, curta bem desenhado por Shiko Shilo, desenrola-se em 20 minutos de suspense e tensão crescente, que levam o espectador a compartilhar a insanidade da jovem transgressora da moral e dos bons costumes.
Enquanto isso, uma cidade é abalada por uma misteriosa figura meio humana e meio animal, que surge do nada em locais movimentados como uma sala de cinema, por exemplo, para atacar as suas vítimas. Em clima policial, Calma, Monga, calma!, de Petrônio de Lorena, espalha o pânico pela cidade, com a contribuição sempre eficaz da mídia, denunciando clichês que se tornam rotina de uma grande cidade.
Em viagem do Velho Mundo para o país do futuro, uma estranha substância química percorre os encanamentos até tocar humanos e transformá-los em seres de olhos ameaçadores. A nojenta gosma que circula pela cidade espalhando o terror ganha conotações histórico-políticas com alusões metafóricas ao colonialismo.
Não creio em monstros, mas que eles existem, existem. E, pasmem, têm sentimentos. É o que garante Caio D’Andrea em O solitário ataque de Vorgon. A ficção (científica) se dá ao luxo de revelar as emoções mais profundas de um estranho ser que se vê isolado em sua saga do mal.
As quatro obras integram a Sessão Maldita desta edição do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. Em comum carregam a tensão que envolve seres atormentados, sejam protagonistas ou coadjuvantes das tramas, sejam espectadores alfinetados por temas incômodos, mas, principalmente, por imagens que muitas vezes preferimos evitar.
Daí o fato de terem sido selecionadas para exibição em horário alternativo e agrupadas sob o “rótulo” de malditas. Também em comum, o fato de trazerem certo ar trash, que acrescenta ainda mais ironia aos indigestos temas abordados, não sem impingir certa leveza a abordagens que poderiam se tornar ainda mais duras.
Afinal, o bom do trash reside exatamente em contrabalançar o peso da cena com o absurdo do sangue catchup, como se cutucasse a ferida, mas deixasse um espaço para que o espectador possa respirar. Como se fosse apenas uma pausa para não sufocar na violência cotidiana, mas sem direito à ignorância de não perceber onde de fato residem os problemas. São obras que não apenas insinuam, mas também apontam questões importantes, muitas vezes tripudiando sobre outras que se pretendem sérias e não passam de caça-níqueis.

Os quatro escolhidos para integrar a Sessão Maldita têm, cada um à sua maneira, pitadas de trash, suspense e tensão psicológica capazes de instigar o espectador. São obras do cinema do mais é mais, que pode ser ainda mais. Cinema dos excessos que, por isso mesmo, pode dizer muita coisa, mais do que você pensa.

Affonso Uchoa, Bruno Vasconcelos, Gracie Santos e Ricardo Alves Jr.

Comissão de Seleção – Curtas Brasileiros