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Mostra DOC Brasil - Apresentação

O Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte apresenta este ano mostras especiais construídas a partir de filmes documentários que dedicam sua atenção e imaginação ora a biografias precárias – personagens interpelados breve e pontualmente em suas vidas, flagrados em movimento de intensidade contingente que o filme acolhe –, ora às transformações da paisagem urbana, às diferentes atribuições de sentido dadas aos espaços urbanos por aqueles que os habitam efetivamente.
Eis alguns filmes que se dedicam a investigar geografias humanas, coordenadas espaço-temporais compartilhadas, lastros de memória. São investigações das cidades subjetivas, dos mapas mentais, dos vestígios afetivos. Nas cidades, o cinema ouve vozes. Todo um rumor: “neste local tudo foi dito muito rápido”, “aqui foi feito amor”, “aqui cobrou-se caro”, “ali quando o que havia era ir-se”. Ouvimos dizer que será desde sempre impossível reconstituir a experiência vivida neste espaço, outrora investido de afeto. Os filmes são curtos e parecem, por isso mesmo, dispostos a renunciar a tratamentos totalizantes. Mas mesmo munidos de poucos recursos contra a desaparição das coisas, querem apontar para o fora do filme, o depois do filme, em que porventura continuarão a ser pensados, sentidos, rememorados. Depois da exibição de um filme, ele nos interpela: houve aqui um bom encontro com o mundo por meio do filme?
Mas como se filma o encontro? Como se filma o encontro e se o restitui na brevidade de um filme? Em meio às suas distintas proposições formais, alguns realizadores pedem às pessoas filmadas algumas coordenadas, outros se esquivam e evitam olhar nos olhos. Alguns recolhem seus restos e prestam atenção aos boatos, sussurros, papéis jogados fora ou postos de lado, uma carta guardada há décadas, apenas agora relida com surpresa. Outros dizem que o que há é desencontro.

Percebemos que aqui não se trata de “dar a voz ao outro”, ou de achar que o outro dará voz a si mesmo com mais propriedade. E, no entanto, os filmes parecem dispostos a deixar insinuar uma ou outra margem de atuação e intervenção das pessoas filmadas nos parâmetros de sua própria encenação - o que nos parece salutar. Assim, aproxima-se com cuidado e curiosidade de familiares, velhos desconhecidos. Ou se arrisca na exposição do cotidiano de anônimos vagamente reconhecidos pela cidade. Em outro momento, faz-se novamente uma pergunta histórica: os negros, esses estrangeiros recém-chegados da África, teriam trabalho nesta terra ou voltariam para onde? O cinema, afinal, não nos indica facilmente como nos localizarmos nesse mapeamento imaginário, em todo um jogo de desorientações urbanas, sinais que acendem e apagam, um belo deserto a ser novamente percorrido por caravanas famintas.

Affonso Uchoa, Bruno Vasconcelos, Gracie Santos e Ricardo Alves Jr.

Comissão de Seleção – Curtas Brasileiros