| Apresentação - Campo Imperfeito |
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Se, ao longo de sua história, o cinema consolidou procedimentos e formas narrativas, seu domínio é continuamente atravessado por outras práticas que – menores, difusas e heterogêneas – o transformam por dentro e por fora. A mostra Campo Imperfeito se situa na intercessão entre o cinema e a arte contemporânea, investigando, no contexto específico do Brasil, alguns modos desse atravessamento. De fato, se ampliarmos a experiência cinematográfica para além de seu circuito mais habitual, vamos nos deparar com mise-en-scènes e escrituras que constituem uma espécie de outro cinema, ou talvez, um “cinema menor”. Para ter acesso e assistir a essas obras, é preciso revolver um pouco a história, ver a poeira que sobe debaixo dos cânones. Isso foi possível com ajuda de acervos tão importantes quanto dispersos, do trabalho de outros pesquisadores e curadores, e da disponibilização espontânea de algumas obras na internet. Façamos então justiça a estes novos circuitos da cinefilia! Olhar o conjunto dos trabalhos que vem à tona após este “revolver” nos levou a uma relação inesperada: aquela que se percebe, ainda intuitivamente, entre proposições artísticas da década de 70 e as experiências atuais. Não queremos aqui propor nenhuma generalização, assim como não foi nossa pretensão realizar uma pesquisa exaustiva. Trata-se apenas de aproximar algumas obras e ver como se reverberam práticas e resultados formais, mesmo que em contextos bem diferentes. Fundamentalmente, nossa pesquisa nos fez encontrar procedimentos que, provenientes da arte, fazem da imagem em movimento o lugar de uma relação, digamos, plástica com o mundo. Assim, as narrativas se tornam micronarrativas, escritas por objetos e corpos que experimentam o movimento no interior do quadro. O plano, explorado em sua dimensão física e sensível, torna-se uma superfície que se estria, se dobra e na qual se inscreve um outro tipo de materialidade. Não se trata aqui, no entanto, de uma auto-referencialidade que encerraria a imagem em si mesma, em sua autonomia formal: há sempre, em maior ou menor grau, o corpo-a-corpo com o mundo, este que foi tão caro à história da arte e do cinema nos últimos anos. A natureza plástica e performática dos trabalhos surge de um embate com o real, com sua estranheza. Contudo, se este embate é político, é porque também são políticas as formas do mundo em sua historicidade: corpos, objetos, tempos e espaços, seus diferentes modos de duração, circulação e visibilidade. Curadores: André Brasil, Eduardo de Jesus, João Dumans. Mostra Campo Imperfeito - Programa Mostra Campo Imperfeito - Ensaio |